1. Miopía

    Não era a primeira vez que eu passava por aquele portal, e nem seria a última. Confesso que fazia um bom tempo desde que havia pisado com minhas botas de cano alto ali. Eu as estava vestindo agora, acompanhado de uma roupa discreta, comparado ao que via ao meu redor, e ao que eu mesmo já havia usado para estar lá. Eu estava de preto. Não havia muita gente próximo a mim, na verdade eu estava sozinho já há alguns minutos.

    A angústia me batia o peito, desculpa, a frustração me batia, na cara. Estava largado às traças, descendo as escadas e me deparando com o frio que havia chegado com a madrugada - deveria fazer horas que eu estava ali. Eu olhava ao meu redor e só via carros estacionados, ninguém que eu conhecia, e francamente, não era momento para encontrar nenhum conhecido, meu ego um pouco inflado não se sentiria bem. Eu já estava do lado de fora quando me dei conta dos pequenos pingos de chuva que caiam - quer dizer, não passava de uma garoa comum, mas o drama que me acompanhava fazia cada gota parecer um pouco maior do que realmente era.

    Resolvi, ao desalento que me encontrava, sentar em um dos bancos que ficavam na praça da frente. Sim, estava úmido, sim, eu estava com frio, sim eu não sabia o que estava fazendo. Dessa vez não por culpa da bebida - e que fique claro aqui, que talvez meu inconsciente, já preparado para o desfecho da noite, me poupara de mais um entorpecente porre de qualquer bebida barata que me oferecessem. Eu estava sóbrio, porém cego.

    Não era a primeira e nem seria essa a última vez que me cegaria por outra pessoa. Na verdade, me considero um cego do coração. Não sei lidar com o amor, nem com paixão, nem com nada. Eu havia caído mais uma vez no conto que eu mesmo criara. Um conto que só na minha cabeça possuía um final feliz. E que eu estava fazendo questão de repetir, cada erro, cada absurdo, e cada dor, por simples masoquismo. Já era prática do meu ser seguir o que viria a me machucar.

    Se tivesse que resumir esta noite em algo, seria na palavra passado. O maldito, descuidado, e besta: passado. O que veio, passou, e não deixou de existir. Uma busca de semelhanças otárias que me levariam pela segunda vez a um erro burro, imperdoável - um erro crucial.

    Me lembro de ter lido em algum momento na vida uma teoria sobre almas gêmeas, algo sobre uma alma procurar nas outras as características inerentes à alma que ele sabe que lhe pertence. Esta seria a missão de cada um, e estes pequenos detalhes seriam as pistas deixadas pela sua correspondente para que um dia se encontrassem e vivessem como um só. Besteira. Se assim fosse, mais de uma alma eu já havia encontrado, e ambas estariam completamente indisponíveis para mim.

    Mas as características sempre batiam. Aquela pessoa parecia minha desde o primeiro olhar. Mas se, a tal teoria estivesse certa, como era possível eu ter visto meu outro ser no olho de duas pessoas diferentes e vivas ao mesmo tempo? Eu estaria cego então, ou no máximo, com uma forte miopia. Discordo. Discordo com tudo que me promete amor, com todo horóscopo ou guia astrológico que me diz que a lua, júpiter e qualquer outro planeta se alinharam só para que eu me entendesse com a criatura, com a tal gêmea.

    Gêmea não, pois se eu estivesse no caminho certo, as duas tais almas que haviam me batido o coração não eram realmente minhas - não nos parecíamos, ainda bem. Claro que, como toda paixão, eu me considerava igual, porém, não muito. Eu busquei até agora a diferença, o que não havia em mim, o que eu precisava para me completar. Aquelas mesmas características. Malditas.

    O sorriso torto. O olhar engraçado, sedutor, e por deveras fundo. A paixão por coisas que eu desconhecia, mas que fazia questão de me interessar apenas para ter assunto e ver sua satisfação desajeitada. A ousadia de desafiar a si mesmo. Um certo egocentrismo, lindo, charmoso. E algumas outras bobagens que não valeriam a pena listar numa passagem tão curta.

    A chuva começava a tomar forma. Algumas nuvens mais brancas cortavam o céu numa velocidade mais acelerada. Por sorte, minha roupa comportada incluía uma camisa de manga longa, e essa agora me protegia da água que se juntava sobre mim. Os cabelos já meio molhados e eu ainda não sabendo como ir embora, não fazendo questão também. Me preocupava mais o amor que o frio. Burro. Engraçado mesmo é eu me preocupar com um amor que não existe. Amam-se as almas, não ama a alma. O amor unilateral não funciona. E eu sou prova disso, acho que duas vezes, ou talvez mais.

    Voltando à atual decepção. Ela agora, ainda além do portal, se acabava em beijos, em apertos e mordiscadas, que eu mesmo havia sido testemunha antes de me retirar daquele lugar. Ela agora não era minha, beijava outro. A alma não me pertencia. Nem agora, e nem nunca.

    Eu, com o rosto um pouco sonolento, sobre a chuva, esperava ali algo mágico, talvez um fim de novela, de filme americano ou de qualquer outra coisa. E ele não parecia aparecer. O que me apareceu foi um estranho e novo olhar, um rosto desconhecido, um rosto que imitava as minhas feições de decepção, de desaprovação do comportamento do destino naquela noite. Era um corpo tão retraído quanto o meu, tão cansado do mesmo tipo de batalha vã que era travada a cada envolvimento desnecessário do coração. Meus olhos percebiam alí, entreabertos, o outro par de pupilas também cansadas. Eu via num relance rápido, como um espelho, tudo o que eu não precisava ver, eu via uma figura semelhante à minha, perdida em meio à garoa, em meio à noite, e talvez em meio à vida.

    - Posso me sentar ao seu lado?

    Várias respostas se passaram na minha cabeça. Seria esse um sinal tardio do destino? Havia ele separado pra mim aquele pedaço da noite, aquele momento único, só meu, para enfim se redimir de todos os erros cometidos até agora? Era um pedido de perdão por ter me enganado na busca pelas almas erradas?

    Chegara enfim o momento, o encontro entre os dois pedaços iguais. Me preparei para responder que sim, para abrir meu coração, ser feliz. Ergui a cabeça, com um pronto sorriso ao rosto, na espera de lhe conquistar facilmente. Mas quando me dei por conta, havia pensado de mais, demorado para responder, e ela não estava ali mais, a alma havia desistido e ido embora. A vi caminhando para o outro lado da rua.

    Eu poderia sim ter gritado, ter levantado, ter corrido atrás daquela alma.

    Mas como já deixei claro, não acredito em alma gêmea.

     
  2. This are a unofficial Game Of Thrones Season 5 Posters made by

    Raphael Augusto Guerhaldt 

    Mateus Muramatsu

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  3. (Taken with Pose)

     
  4. (Taken with Pose)

     
  5. sorrir-e-mais-nada:

    Um homem não pode obrigar uma ninguém a gostar dele, mas pode aumentar as suas possibilidades. 

    (via eter-nizando)